Um investidor lendário apareceu num podcast a prever o fim do mercado americano. Fui verificar o que ele próprio fez com o dinheiro dele. A resposta devia estar em todos os manuais de investimento.
Esta semana recebi o mesmo vídeo enviado por gente diferente, em grupos diferentes, com a mesma legenda ansiosa: "Pedro, viste isto?" Era um investidor lendário, sentado no sofá do Diary of a CEO, a dizer a Steven Bartlett que o mercado americano ia cair 70%... e que, se tivesses ações americanas, a decisão certa era vender tudo.
Não é a primeira vez que isto acontece, nem vai ser a última, mas decidi fazer uma coisa que quase ninguém faz quando ouve uma previsão destas: fui verificar.
O homem, o mito, a entrevista
Chama-se Jeremy Grantham. Tem 87 anos, cofundou uma gestora que já geriu mais de 100 mil milhões de dólares, e passou seis décadas a construir uma reputação de ver bolhas antes de rebentarem. Previu o colapso do Japão em 1989. Previu o rebentar da bolha da internet em 2000. Previu a crise do imobiliário em 2007. Três vezes seguidas, viu a festa acabar antes de toda a gente. É um currículo a sério...
Na conversa com Bartlett, Grantham não hesitou. Disse que estamos dentro da maior bolha de investimento da história americana, alimentada pela euforia à volta da inteligência artificial. Disse que uma queda de 70% "não seria surpresa" a partir destes níveis e resumiu o conselho numa frase direta: se tens uma posição grande em ações tecnológicas americanas, vende tudo.
"A minha estimativa é entre daqui a duas semanas e daqui a dois anos. O momento é sempre terrivelmente incerto, mas o mercado vai atingir o pico e voltar à tendência. E voltar à tendência, a partir daqui, estará mais perto de uma queda de 70% do que de 50%."
Jeremy Grantham, Diary of a CEO, 25 de junho de 2026
É uma frase que gela o sangue a qualquer pessoa com dinheiro investido em Bolsa e é exatamente por isso que estas entrevistas se tornam virais tão depressa: o medo espalha-se mais rápido do que qualquer outra emoção.
Há, no entanto, uma pergunta que quase ninguém faz quando ouve alguém com este currículo dizer "vende tudo". A pergunta é simples: e ele, vendeu?
Fui ver a carteira dele... não vais acreditar no que lá está!
A ideia de ir verificar não foi minha, foi do Adam Khoo, o meu mentor de investimentos. Foi ele quem foi direto ao GuruFocus, uma plataforma que mostra publicamente as posições dos grandes fundos... e o que encontrou é, no mínimo, desconcertante.
Grantham não vendeu tudo. Nem perto disso.
- Continua a deter Microsoft, Google, Johnson & Johnson, Apple e Meta Platforms como algumas das maiores posições da sua carteira de investimentos.
- No trimestre mais recente, comprou mais ações: Mastercard, Netflix, Synopsys, Roper Technologies, entre outras.
- Não tem uma única posição vendida a descoberto contra o mercado americano.
Repara bem no que isto significa: o homem que te diz, ao vivo, numa entrevista vista por milhões de pessoas, para venderes as tuas ações americanas está, ao mesmo tempo, a comprar mais ações americanas para a sua própria carteira.
Ouve sempre o que um investidor diz, mas olha sempre para o que ele faz com o próprio dinheiro.
O relógio parado também acerta duas vezes por dia
Talvez estejas a pensar: "Pedro, mas ele já acertou antes. Talvez volte a acertar outra vez." É justo. Vamos aos números... sem complicações... prometo.
Nos últimos 20 anos, Grantham já nos avisou de crashes iminentes em 2010, 2014, 2018, 2020, 2021, 2022, 2023 e 2024. Praticamente todos os anos alguém publicou um artigo com o título "Grantham avisa: crash à vista". A maioria dessas previsões simplesmente não se cumpriu.
A mais recente, antes desta, foi em abril de 2023, quando disse que o S&P500 (o principal índice do mercado americano) podia cair 50%. Quem vendeu nessa altura, assustado, perdeu o resto da festa: desde então, o mercado subiu mais de 80%.
Na verdade, olhando para duas décadas de avisos, Grantham só acertou verdadeiramente uma vez, na crise financeira de 2007-2008. Foi uma chamada certeira e importante, mas uma vitória em vinte tentativas não faz um sistema... é como um relógio parado que, de vez em quando, mostra a hora certa.
A roleta que ninguém te mostra
Isto leva-me à parte que mais me marcou nesta história, e que não tem nada a ver com fórmulas complicadas de finanças. Foi o próprio Adam Khoo quem a apresentou, num vídeo que partilhou recentemente. Imagina uma roleta de casino. Numa roleta normal, tens números vermelhos e números pretos, mais ou menos equilibrados.
Agora imagina uma roleta diferente: 59 números verdes e apenas 16 vermelhos. Em qual apostavas sempre? A resposta é óbvia: no verde, sempre, mesmo sabendo que de vez em quando vais calhar num vermelho.
Pois bem: essa é, grosso modo, a roleta do mercado acionista americano nos últimos 75 anos. O mercado fechou o ano positivo cerca de 79% das vezes. Fechou negativo nos restantes 21%. E o mercado americano tem mostrado que quando sobe, tende a subir muito mais do que desce quando cai.
Uma queda superior a 30% em relação ao máximo, algo menos assustador do que Grantham anda a prever, só aconteceu uma vez nestes 75 anos: em 2008. Isso é cerca de 1% das vezes. Já uma subida de 30% a 40% num único ano aconteceu dez vezes. Ou seja, é treze vezes mais provável subir muito do que cair muito.
Apostar contra este mercado, ano após ano, é como insistir em jogar sempre no vermelho numa roleta cheia de verdes. Podes ganhar essa aposta uma ou outra vez, mas se a repetires vinte vezes, a matemática não está do teu lado.
E se ele tiver razão desta vez?
É uma pergunta justa, e não vou esconder... os mercados caem, sim, e vão sempre continuar a cair (de vez em quando): isso faz parte do jogo, não é uma falha do jogo.
Aqui estão, no entanto, as contas que poucas pessoas fazem: "e se". Mesmo que o mercado caísse 50% amanhã, um dos cenários mais extremos que Grantham já defendeu, quem tivesse mantido o dinheiro investido, com os dividendos reinvestidos ao longo de vinte anos, ainda teria mais do que triplicado o dinheiro. Compara isso com ficares fora do mercado e com o dinheiro parado, à espera do momento certo para entrar: aí, mal conseguirias ter acompanhado a inflação.
Ou seja: mesmo num dos piores cenário do próprio Grantham, manter o dinheiro investido no mercado americano continua a bater quem opta por ficar de fora. A única forma de perderes (mesmo) é venderes tudo no momento errado e nunca mais voltares a entrar, o que, ironicamente, é exatamente o que este tipo de aviso costuma provocar nas pessoas mais assustadas.
O que isto muda na tua cabeça
Não te estou a dizer para ignorares por completo o risco. Os mercados caem, as bolhas existem e um dia, ninguém sabe exatamente quando, vai haver uma correção séria. Isso é normal e faz parte de processo de investir em ações.
O que te estou a dizer é outra coisa, mais incómoda: previsões de crash vendem-se muito bem. Livros, palestras, entrevistas, cliques. Um título como "vai cair 70%" gera muito mais atenção do que "o mercado provavelmente vai continuar a subir, com solavancos pelo caminho". E quem vive de vender essa narrativa não tem grande incentivo para deixar de a contar, mesmo quando a própria carteira de investimentos mostra o contrário.
A pergunta que fico a dever-te não é se achas que o mercado vai cair. Um dia vai cair. A pergunta é outra: vais tomar essa decisão com base numa entrevista que te assustou, ou com base num plano que já tinhas definido antes de a veres?
Porque, no fim, a diferença entre quem constrói património e quem passa a vida a saltar para dentro e fora do mercado não é quem previu melhor o próximo crash. É quem continuou lá dentro, com um plano bem definido, enquanto os outros discutiam quando é que o céu nos ia cair em cima.



