Terry Smith capitulou - a vantagem que tu tens sobre ele

Terry Smith capitulou: a vantagem que tu tens sobre ele

O gestor que passou 15 anos a pregar "não faças nada" acabou de trocar metade da carteira em seis meses. A lição não está no que ele fez, está no que tu não és obrigado a fazer.

Em janeiro de 2026, Terry Smith disse numa entrevista que a subperformance numa estratégia é uma característica, não uma falha. Deixou ainda um aviso: quem muda de estratégia a meio do ciclo arrisca-se a perder o rumo para sempre.

Seis meses depois, mudou de estratégia a meio do ciclo.

Sim, leste bem... o homem que construiu uma reputação mundial com três frases, "compra boas empresas, não pagues demais, não faças nada", acabou de rasgar a terceira frase.

Janeiro de 2026
"Se decidires mudar de estratégia a meio do caminho, podes perder o rumo para sempre."
Julho de 2026
"Passaremos a dar mais peso ao momentum (tanto fundamental como de preço) nas nossas decisões."

Os números que ninguém consegue disfarçar

Comecemos pelos factos, porque os factos aqui são brutais.

No primeiro semestre de 2026, o Fundsmith Equity perdeu 2,9%. No mesmo período, o índice MSCI World subiu 11,2% em libras. São 14 pontos percentuais de diferença em seis meses... em cima de cinco anos consecutivos a perder para o índice, desde 2021.

O fundo, que chegou a gerir cerca de 29 mil milhões de libras no início da década, vale hoje cerca de 12 mil milhões. Menos de metade. O dinheiro saiu, e continua a sair.

Depois há o número que conta a verdadeira história: a rotação da carteira. A média histórica do Fundsmith rondava os 2% a 3% ao ano. No primeiro semestre de 2026, atingiu 51,8%.

Dois por cento significa que não tocas em nada. Cinquenta por cento significa que estás a gerir um fundo diferente. O nome na porta é o mesmo, o que está lá dentro, não: saíram 13 empresas, entraram 12, incluindo nomes que ele jurou (durante anos) nunca comprar.

A frase que explica tudo

No meio da carta semestral, Smith escreveu a frase mais honesta da sua carreira. Admitiu que uma abordagem de comprar e manter só funciona se não estiveres sujeito a fluxos de capital. O Fundsmith está sujeito a fluxos.

O Terry Smith não mudou porque o mundo mudou... mudou porque o dinheiro saiu!

Pensa no que isto significa. Cada resgate de um cliente impaciente obriga-o a vender. Cada trimestre abaixo do índice acelera os resgates. Cada venda forçada piora os resultados. É uma espiral e nenhum génio de seleção de empresas escapa ileso.

Na assembleia anual de fevereiro, alguém lhe perguntou se a parte mais difícil de perder para o índice era a pressão psicológica. A resposta dele foi uma palavra: SIM. Citou depois Keynes, aquela máxima de que, em termos de carreira, é melhor falhar de forma convencional do que ter sucesso de forma pouco convencional.

Cinco meses depois, escolheu falhar de forma convencional. Juntou-se à multidão.

Agora, a parte que te interessa a ti

Aqui está o paradoxo que quero que leves deste artigo.

Se o investidor de qualidade mais disciplinado da sua geração, dono da própria empresa, sem patrão, não aguentou cinco anos abaixo do índice… o que te faz pensar que tu aguentas?

A resposta honesta: nada te garante que aguentas. Exceto uma diferença estrutural que muda tudo.

O Terry Smith tem clientes. Tu não tens.

Ele presta contas a milhares de investidores que comparam os resultados do fundo de investimento ao índice todos os trimestres... e retiram dinheiro quando não gostam do que veem. Tu prestas contas a uma única pessoa: a que vês ao espelho... e à estratégia que definiste para os próximos 10, 15, 20 anos.

Ninguém te pode resgatar capital. Ninguém te obriga a vender uma boa empresa com desconto porque um cliente ficou nervoso. Ninguém te despede por teres um ano mau. A tua vantagem sobre os profissionais nunca foi teres mais informação, mais tempo ou mais inteligência... é não teres fluxos!

· · ·

A minha confissão

Agora a parte desconfortável, porque prometi sempre honestidade neste blog.

Em meados de julho de 2026, a minha carteira também está abaixo dos índices globais. Contrariamente aos últimos anos, este semestre o mercado premiou o momentum e castigou quem está fora dos nomes da moda. Aconteceu ao Terry Smith, aconteceu-me a mim, provavelmente aconteceu-te a ti.

A diferença está no que fiz a seguir.

Não vendi nada em pânico. Não persegui o que já subiu 40%. Tenho aproveitado esta fase para reforçar fortemente as posições nas empresas que quero manter em carteira durante muitos anos. Empresas que analisei, cujo negócio percebo, com vantagens competitivas que consigo explicar a uma criança de 12 anos.

A rentabilidade de um semestre não me diz nada sobre a qualidade das minhas decisões, diz-me apenas qual era o humor do mercado nesses seis meses... e o humor do mercado não é uma estratégia.

O espelho

Não escrevo este artigo para gozar com o Terry Smith. O historial dele desde 2010 continua acima do índice, e aprendi imenso com os vídeos das suas entrevistas ao longo dos anos. Escrevo-o porque a capitulação dele é o melhor estudo de caso que vais encontrar sobre a diferença entre gerir dinheiro dos outros e gerir o teu próprio dinheiro.

Ele tinha o processo certo e a estrutura errada. Tu podes ter as duas coisas certas.

A questão que te deixo não é se o Terry Smith fez bem ou mal em mudar. É outra, mais incómoda: quando chegar a tua fase de cinco anos abaixo do índice, e poderá chegar, o que vais fazer tu?

Porque a resposta a essa pergunta vale mais do que qualquer análise de empresa que eu possa publicar aqui.

P.S. Se queres acompanhar de perto as empresas que tenho em observação e estou a reforçar nesta fase, bem como a razão por trás de cada decisão, é isso que faço regularmente na comunidade "Investir na Bolsa".

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