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Olha para esta fotografia de 1994. Cabelo comprido, t-shirt larga, com um puto a fazer um pirete, um calendário pendurado na porta... O rapaz da foto não sabia quase nada do que eu sei hoje... e o homem que vou ser em 2036 vai olhar para mim da mesma maneira.
Esta semana li um texto do Rose Celine no X que me deixou uma pergunta a martelar durante várias horas: quem é que eu vou ser daqui a dez anos... e o que é que esse homem vai pensar das decisões que estou a tomar hoje?
Fui buscar respostas ao sítio mais improvável: a uma caixa de fotografias antigas.
As respostas que encontrei estão escritas em papéis debaixo do braço, numa guitarra elétrica que eu não pedi ao meu pai, em árvores, em rios e num contrato que acabei por rasgar...
Nasci a 21 de julho de 1978, uns cinco minutos antes das duas da manhã.
Nas fotografias de 1982, com uns 4 anos, apareço sempre com papéis debaixo do braço direito. Não sei o que eram nem para onde achava que ia com eles, sei que me levava muito a sério sempre que circulava no quintal dos meus pais dessa forma.
Aos 6 anos decidi que ia ser dentista, por causa das idas ao meu dentista me darem a sensação de que ele deveria ser um tipo muito rico. A minha mãe adorou a ideia, porque assim poderia tratar-lhe os dentes de graça... mas eu recusei logo esse plano de negócio.
Em 1989 o meu pai emigrou para Inglaterra. Eu tinha 11 anos, a minha irmã tinha 9 e ficámos sozinhos, em Viseu, com a minha mãe. Antes de ele regressar, em 1991, pedi-lhe um computador.
Ele trouxe-me uma guitarra elétrica.
Na altura, para um miúdo de 13 anos, foi uma desilusão. Hoje acho que foi das melhores decisões que alguém tomou por mim.
"Nem sempre recebemos o que pedimos. Às vezes recebemos aquilo que nos vai mudar a vida."
Pedro Silva-SantosAos 13 anos comecei a aprender guitarra clássica. Escalas, arpejos, posição da mão, teoria... horas de exercícios aborrecidos que, para um miúdo, pareciam não levar a lado nenhum.
Aos 15 anos deixei crescer o cabelo, inspirado nos guitarristas que via na televisão. É esse o cabelo da fotografia de 1994. Nesse mesmo ano de 1994 subi ao palco pela primeira vez com uma banda de rock.
Aprendi cavaquinho e bandolim e isso valeu-me convites para ranchos folclóricos e grupos de cantares. Passava os fins de semana a viajar para concertos. Aos 15 anos já era assistente do meu professor de guitarra na escola de música e dava aulas aos alunos novos.
A Dona Zulmira, a vizinha de baixo, pedia-me muitas vezes para baixar o som da guitarra elétrica que o meu pai me tinha oferecido. Ela tinha toda a razão... aquelas tardes de exercícios repetitivos eram irritantes para quem as tinha de ouvir vezes sem conta.
Só mais tarde percebi para que tinham servido as escalas. As melodias e os solos que toda a gente aplaude nos concertos são construídos em centenas de horas que ninguém vê.
As idas a estúdio, para gravação das músicas que compunha, deram-me outra coisa que só descobri décadas depois. Quando comecei o podcast "a Ave Rara", dei por mim a ouvir o que a maioria das pessoas não ouve: o eco de uma sala mal isolada, um microfone demasiado próximo, uma compressão exagerada, um corte feito à pressa.
Nos investimentos também há escalas. Ler um relatório e contas, perceber as margens do negócio, estimar o valor intrínseco de uma empresa... é aborrecido, eu sei! Toda a gente quer o solo, ninguém quer treinar as escalas.
No secundário, as minhas notas andavam quase sempre entre 8 e 12 valores. Nunca chumbei, mas passava muitas vezes à justa, com uma ou duas negativas pelo caminho. A medicina dentária ficou arrumada por falta de média.
O sonho já era outro... aos 18 anos queria estudar música na Califórnia. Encontrei a morada de uma escola na revista Guitar Techniques, escrevi-lhes uma carta em inglês e recebi resposta pelo correio.
Vinha com o preço das propinas. Nem eu nem os meus pais tínhamos aquele dinheiro.
Pensei num curso de música para ser professor e não gostei da ideia. Foi o Sr. Albino, pai de uma vizinha, que me falou em Engenharia Florestal. Falou-me também do direito a habitação, que afinal, percebi mais tarde, era para os guardas florestais e não para os engenheiros...
Agora repara. O rapaz da fotografia de 1994 tinha a certeza de que ia ser guitarrista, de preferência na Califórnia. Não lhe passava pela cabeça que ia ser engenheiro florestal, professor de ecologia, empresário, investidor e autor de livros.
Se lhe mostrassem o filme da vida dele, não acreditava numa única cena.
Em 1996 entrei na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em Vila Real. Foram cinco anos a viver com cerca de 50 mil escudos por mês, uns 250 euros na moeda de hoje. O meu pai fez horas extra todos os fins de semana durante esses cinco anos para que isso fosse possível.
No segundo ano tive de aprender a identificar árvores. Até ali, para mim, qualquer árvore com agulhas e pinhas era um pinheiro. Ponto final.
Depois vieram as chaves de identificação, as saídas de campo, as agulhas e as pinhas na mão... e passei a distinguir a pseudotsuga do abeto, o abeto da pícea, a pícea do cipreste. Percebi que a casuarina, que eu também metia no saco dos pinheiros, nem sequer é uma conífera.
As árvores eram exatamente as mesmas. Estavam nas mesmas estradas por onde eu passava desde miúdo. Durante anos estiveram ali a dizer-me os nomes delas... e eu não as ouvia.
"A floresta não mudou, mudaram os olhos com que eu a vejo."
Pedro Silva-SantosO meu estágio final, em 2001, foi num troço do rio Mondego, a estudar como é que a regularização do caudal do rio afetava os peixes e os macroinvertebrados aquáticos. No início, para mim, um rio era apenas água a correr entre duas margens. No fim, era um sistema vivo cheio de sinais que eu antigamente não sabia ler.
Entre 2002 e 2004, com 24 anos, dei aulas de Ecologia Terrestre, Hidráulica Florestal e Ecologia de Sistemas Aquáticos no Instituto Politécnico de Bragança. A partir de setembro de 2004 passei a dar aulas de Ecologia na UTAD.
Vi nos meus alunos o que tinha acontecido comigo. Ninguém lhes mudava o rio, davam-lhes olhos novos.
O conhecimento não te dá mais informação sobre o mundo, dá-te a capacidade de ver aquilo que já lá estava. Nas árvores, no som, nos rios... e nos relatórios de contas das empresas.
Em maio de 2004 fiz uma coisa que quase toda a gente à minha volta achou uma loucura. Saí de um contrato público com subsídio de férias, subsídio de Natal e ADSE para começar a fazer monitorização ambiental de parques eólicos na Serra do Marão.
Voltei para Vila Real, aluguei um quarto em casa de amigos e comecei a passar recibos verdes por cada trabalho. Não queria contratos de exclusividade, queria liberdade para viajar e para tocar com a minha banda de rock. A família e os amigos achavam que eu estava, simplesmente, a ser parvo e irresponsável.
Em 2009 criei a empresa NOCTULA. A partir daí estudei e experimentei o marketing, empreendedorismo e plataformas de venda online. Algumas dessas aventuras quase me arruinaram e chegaram a pôr em risco a casa e as poupanças dos meus pais. Como se isso não bastasse, fui traído por pessoas em quem confiava cegamente.
Foi aí que aprendi, da forma mais cara possível, a lição que hoje está no centro de tudo o que faço nos investimentos: há riscos que valem a pena e há riscos que nunca deves correr, porque o que está em jogo não é só teu.
Perder uma oportunidade dói. Perder aquilo que não podias perder destrói. Hoje prefiro ficar de fora de mil oportunidades do que voltar a pôr em risco a minha família e tudo o que já construí.
Comecei a investir em 2018 e comecei muito mal. Tinha a certeza de que percebia de mercados. Tinha a certeza de que o trading especulativo era o caminho mais rápido. Apesar de ter lido que muita gente acabava por perder dinheiro com o trading, tinha a certeza de que comigo ia ser diferente.
Várias certezas... e nenhuma sobreviveu. Perdi 22 612,91€ em poucos meses.
Em junho de 2020 assumi essas perdas, mudei de método e recuperei tudo em 7 meses. O mercado era o mesmo, a informação disponível era a mesma...
O Pedro de 2018 via gráficos a subir e a descer. O Pedro de hoje vê negócios, MOAT, margens, endividamento, gestão... e um preço que pode estar acima ou abaixo daquilo que a empresa vale. Antes eram todas pinheiros, agora cada uma tem um nome.
Os números dizem o resto da história. Entre 2021 e 2025, cinco anos completos, a minha carteira valorizou cerca de 130%. No mesmo período o S&P 500 fez perto de 96% e o Nasdaq 100 perto de 102%, já com dividendos incluídos.
A 9 de outubro de 2026, a valorização total da minha conta na corretora chegou aos 211 222,23€. Escrevi sobre isso no artigo "211 mil euros de valorização. Parece fácil... até deixar de ser." e repito aqui o que disse nesse artigo: o número parece fácil visto de fora... até deixar de ser.
O mesmo homem que perdeu 22 mil euros a especular é o que hoje tem mais de 211 mil euros de valorização. A diferença não está no mercado, está nos olhos.
Aqui vem a parte que me incomoda. Se o rapaz de 1994 estava tão enganado sobre o seu futuro e se o Pedro de 2018 estava tão seguro e ao mesmo tempo tão errado, o que é que me garante que o Pedro de 2026 está certo em tudo?
Nada. Absolutamente nada.
Há uma parte de mim que hoje ainda chama "pinheiro" a coisas que não são pinheiros. Só não sei quais... e é exatamente por isso que tenho de investir com humildade.
Qualquer engenheiro florestal te explica a diferença. O eucalipto cresce depressa, dá dinheiro cedo e destaca-se perante os olhos que passam na estrada. O carvalho demora décadas a crescer, quase não se nota de um ano para o outro... e a madeira vale muito mais.
O mercado adora eucaliptos. São as empresas de que toda a gente fala no X e no YouTube, as que sobem 80% num ano, as que têm sempre uma história nova para contar a cada trimestre.
Não tenho nada contra eucaliptos, não quero é pagar por um eucalipto o preço de um carvalho centenário.
Uma excelente empresa continua a ser excelente quando está cara. Só deixa é de ser um bom investimento. É por isso que no meu "Harém" há empresas que adoro e que só compro quando o preço das ações chega ao valor que eu quero: espero pelo preço, não pela história.
Se pudesse falar com o rapaz de 16 anos da fotografia, não lhe dava conselhos sobre ações. Ele não iria ouvir.
Dizia-lhe apenas três coisas. Que as escalas aborrecidas vão valer mais do que imagina. Que os planos dele vão falhar quase todos e que isso vai ser a melhor coisa que lhe vai acontecer na vida. Que o pai dele vai trabalhar fins de semana inteiros para ele estudar... e que um dia ele vai perceber o tamanho desse esforço.
Em 2036 vou ter 58 anos. Esse homem vai olhar para os mercados acionistas como eu olho hoje para uma floresta de coníferas, mas vai distinguir o que eu hoje ainda vejo como uma única mancha verde. Não me preocupa que ele saiba mais do que eu, isso é uma certeza... e ainda bem!
Preocupa-me o que lhe vou deixar. Posso deixar-lhe uma floresta a crescer devagar... ou um terreno queimado por uma decisão estúpida tomada numa sexta-feira qualquer!
"O meu trabalho é deixar-lhe uma floresta, não um terreno queimado."
Pedro Silva-SantosNunca pagarei por um eucalipto o preço de um carvalho centenário.
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