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Se estás a ler este artigo no Natal de 2037, há duas hipóteses:
– ou estás a rir-te com tanto dinheiro que ganhaste, porque compraste ações de excelentes empresas SaaS em pleno pânico;
– ou estás a olhar para o ecrã a pensar:
“Porque é que eu não comprei ações quando toda a gente estava a vender?”
Este texto é um retrato de um momento: fevereiro de 2026.
A narrativa dominante é simples:
“As empresas de SaaS estão fo*****!”
“O vibecoding vai matar o SaaS.”
“O terminal da Bloomberg está condenado.”
E o artigo da Citrini (The 2028 Global Intelligence Crisis) veio dar alguns verniz intelectual a esta tese:
… se criar software com Inteligência Artificial (IA) está a tornar-se quase gratuito, então o modelo SaaS poderá estar estruturalmente ameaçado.
As “Aves Raras” respiram fundo… porque já viram este filme!
SaaS significa Software as a Service.
Em português muito simples, consiste num programa que não compras uma vez e instalas para sempre. É software que usas através da internet e pagas uma subscrição mensal (ou anual) para poderes continuar a ter acesso a todas as funcionalidades.
Exemplos clássicos:
Um CRM online;
Um software de contabilidade na cloud;
Uma plataforma de email marketing;
Um sistema de gestão empresarial;
Um terminal da Bloomberg para os profissionais que realizam análises financeiras.
Não compras o programa, pagas para o usar… e não pagas apenas pelo código, pagas por:
Atualizações constantes;
Segurança;
Infraestrutura;
Suporte;
Fiabilidade;
Integração com outros sistemas.
Num vídeo recente, o meu mentor (Adam Khoo) partilhou uma frase interessante:
Agora que inventaram o micro-ondas, todos os restaurantes vão fechar portas!
Ridículo, não é?
Mas lógica é a mesma… o vibecoding é extraordinário: consegues criar software através de instruções dadas a uma Inteligência Artificial em linguagem natural. Descreves o que queres e a IA gera automaticamente o código e a estrutura da aplicação.
Eu próprio, não percebo nada de programação e tenho testado ferramentas de vibecoding como a Base44… e digo-te: é incrível e parece inacreditável.
Mas também é imprevisível.
Quando não és programador, a arquitetura base de qualquer programa ou aplicação começa bem e de forma fácil, mas mais à frente apercebes-te que criaste um “Frankenstein digital”.
À medida que o número de utilizadores aumenta, começam a aparecer:
Entidades duplicadas;
Relações que ontem funcionavam e hoje estão a dar erros inexplicáveis;
Campos criados por entusiasmo criativo, mas que não servem para nada (além de criar criar mais peso e lentidão na base de dados);
Estruturas que parecem sólidas… até tentares expandir a cozinha e dares conta que o teto da sala acabou de cair.
Creio que percebes a analogia e o que pretendo mostrar-te.
Criar algo funcional é relativamente fácil. Criar algo robusto, auditável e escalável… é outra conversa!
O artigo da Citrini levanta uma questão legítima:
Se qualquer pessoa pode criar software com Inteligência Artificial, o que acontece às empresas que vendem software?
Boa pergunta.
Mas depois vem o salto lógico e perigoso:
Se criar software ficou barato, o SaaS perdeu valor.
Calma lá… não é bem assim!
O que perde valor é o software superficial. O valor do SaaS nunca foi apenas o código, consiste em:
Confiança;
Segurança;
Compliance;
Infraestrutura;
Dados exclusivos;
Integrações profundas;
As empresas não pagam subscrições porque não sabem programar, pagam subscrições porque não querem assumir riscos de falhas a vários níveis.
Nenhum diretor financeiro irá trocar um fornecedor crítico por um projeto gerado internamente através de alguns prompts.
Dizer que o o terminal da Bloomberg pode ser substituído porque alguém escreveu uns prompts (enquanto estava na sanita) e criou uma interface parecida, é quase cómico.
Um terminal da Bloomberg não é apenas um ecrã, consiste em:
Infraestrutura de dados própria:
Relações institucionais;
Rede global de jornalistas e analistas;
Ecossistema fechado;
Efeito de rede brutal;
Confiança acumulada durante décadas.
Replicar o visual é fácil… replicar a infraestrutura é outro patamar!
Não é necessário sermos brilhantes para percebermos que o vibecoding vai:
E isso é excelente, certo?
Contudo, não vai eliminar:
Fornecedores de SaaS nos clientes para os quais essa mudança acarrete custos elevados;
Plataformas integradas profundamente nos processos dos clientes;
Empresas com dados próprios e exclusivos;
Ecossistemas com efeitos de rede.
A tecnologia raramente mata modelos fortes, mata os mais frágeis… e isso é o mercado a fazer a purga naturalmente!
Primeiro a euforia, depois o exagero e a seguir o pânico generalizado.
E é aqui que as “Aves Raras”… observam!
Enquanto muitos investidores vendem empresas de SaaS porque “a IA vai destruir tudo”, as “Aves Raras” têm estado a comprar mais ações de excelentes empresas de SaaS.
Pessoalmente, já aprendi que quando o mercado entra em narrativas de pânico (e do fim do mundo), cria descontos emocionais… e descontos emocionais costumam trazer oportunidades racionais!
O risco não é o fim das empresas de SaaS, é aquilo que vendem tornar-se banal e igual ao que toda a gente oferece.
Empresas que vendem apenas interfaces sem dados exclusivos, integração profunda, efeito de rede, uma marca forte e sem responsabilidade operacional… essas podem (e devem) sofrer!
Mas, e as empresas estruturais?
Essas vão integrar a Inteligência Artificial, aumentar a eficiência e reforçar a sua posição no mercado.
Não tenho dúvidas: as melhores empresas de SaaS vão usar a IA para se tornarem ainda melhores.
Se estás a ler este artigo em 2037, talvez o SaaS tenha evoluído, talvez tenha mudado de nome, talvez já esteja integrado (de forma invisível) em tudo, mas uma coisa é certa:
A tecnologia não elimina modelos fortes, elimina os mais fracos.
O mês de fevereiro de 2026 pode ter sido apenas mais um momento em que o mercado confundiu inovação com extinção.
A pergunta continua simples:
Quando todos estavam a fugir do fogo, tu vendeste em pânico ou compraste qualidade em saldo?
Daqui a 11 anos saberás a resposta.
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